16 Outubro 2009

Um plano quase perfeito



Quando estávamos no meio da estação das chuvas, a cozinha foi atacada por formigas. Aquelas bem pequeninas. Organizadas como são, um dia montaram um plano tão bem montado e às escondidas. Em poucos segundos, atacaram o bolo com passas que eu havia feito.

Eu que tinha tido tanto trabalho para fazer o bolo... O meu plano de segurança alimentar tinha tudo para dar certo – água numa bacia grande de plástico, uma caixa de plástico dentro da bacia e, finalmente, o bolo coberto por uma toalhinha de pano.

O bolo ficou numa “ilha”. E como elas (as pequeninas) não nadam, não havia perigo de ataque. O meu erro foi ter deixado, sem perceber, uma pontinha da toalha a tocar na bacia. Pronto! A pontinha serviu de ponte e as formigas fizeram a festa.

Gritei o nome do Tó e passei o bolo pra ele. Mas eu precisava pensar no que fazer.

- Amor, elas estão subindo nos meus braços e me picando!

Peguei o bolo e o joguei direto no forno que ainda ardia. As formigas ficaram assadas e o bolo... Não gosto nem de pensar.

14 Outubro 2009

Para não enferrujar

- Fatú, vou lá em cima – falei.

Ela olhou para os meus pés e viu os tênis vermelhos. Passou os olhos no meu vestido e deu um sorriso.

- Se eu não fizer alguma coisa, o meu corpo vai enferrujar – eu disse.
- Tem uma academia aqui perto – falou.
- Não gosto de academia, Fatú. Não funciona comigo.
- OK.

E lá fui eu a subir a rua onde moramos. Melhor dizendo, a subir a ladeira. Há plantas em boa parte do caminho e alguns lagartos a correr pelo chão.

E fui subindo. Um rapaz também. Subia em zig zag, em marcha cada vez mais lenta como se quisesse que eu o alcançasse. Olhava pra mim e eu séria. Nada de cumprimentos.

Da última vez que arrisquei um ‘bom dia’, um rapaz parou, quis saber o meu nome, como eu estava... Êita que deu trabalho.

Ao chegar lá em cima, eu estava morta.

Dei uma olhadinha no movimento da rua principal e me preparei para descer. Quando olhei para o pé da ladeira, avistei o Ibrahim, bem magrinho no seu uniforme preto com detalhes vermelhos. Não tirava os olhos da ladeira. E eu sem entender nada.

- Tô me exercitando, Ibrahim – disse, ao chegar ao portão de casa.
- Pois é.
- Fatú, Ibrahim parece segurança de presidente da República.
- Pedi pra ele ficar de olho, fazendo a segurança enquanto você sobe e desce para ninguém parar e conversar besteira – explicou Fatú.

‘Essa eu vou contar ao Tó’, pensei. E lá fui eu de novo.

Enquanto eu subia, um menino descia. Carregava um saquinho de farinha na cabeça e algumas pedras nas mãos. O alvo foi um cachorro. Menino danado. Com cara de pidão, o cachorro olhou pra mim.

Desci e subi. De novo.

- Ibrahim, esta é a ultima.

10 Outubro 2009

Alfred é coisa de cinema

Sempre quando quero encontrar o Alfred, vou atrás da camisa verde. É uma das marcas dele. A camisa verde que se destaca entre o verde do jardim. A camisa verde que ele veste todos os dias para trabalhar.

Parece gostar de ficar de cócoras ou sentado com a perna esquerda cruzada e a direita esticada para o lado. Fica um tempão assim tirando as ervas daninhas. As ervas vão para uma bacia que ele sempre carrega consigo. O vi agora há pouco com ela embaixo do braço. Um dia, quando a bacia refletiu a luz do sol, o Tó estava na varanda.

- Amor, amor, vem ver a bacia do Alfred. Que bacia linda! Parece de cobre – O Tó estava espantado com tanta beleza. Outro dia viu a bacia de perto e descobriu que era de latão.

Quando quer andar, o Alfred flutua. Vai leento, leento e leeve. Ele nem imagina que eu o observo tanto. Observo-o e fico meio assim...querendo dormir.

Esses dias, o vi ao longe sentado na grama. Estava de costas. Eu conseguia ver o seu braço esquerdo buscar alguma coisa parecida com um talo longo e fino. Os dedos da mão direita passeavam de um canto a outro como se estivessem limpando-o. Depois ele repousou o talo à sua direita. Buscava, passava os dedos, repousava os talos. Fez isso não sei quantas vezes.

No dia seguinte, vi o Alfred com uma vassoura nova e alta. “Ele deve ter feito a vassoura com os talos. Que sabido!”, pensei.

Depois a Fatú me explicou.

- Do coqueiro a gente aproveita quase tudo. Do talo das folhas fazemos vassouras.

E o Alfred lá, todo elegante. Mão esquerda esticada para baixo e vassoura nova na mão direita. Coluna quase ereta se a tarefa não exigisse uma suave inclinação para frente.

- Vassoura nova, Alfred. Você a fez? – perguntei.
- Fiz, sim – falou com um sorriso orgulhoso.
- Muito bem.

Numa manhã, da janela da cozinha, ouvi o barulho de um facão a cortar galhos da árvore que fica bem à frente. Não vi o rosto, mas logo reconheci a camisa verde. Não sei se de lá de cima ele notou que eu estava a tentar achá-lo e parou. Ibrahim, o segurança, abriu um sorriso pra mim achando graça do Alfred. Falaram não sei o quê em Krio e o Alfred voltou a cortar os galhos, que já avançavam em direção a casa.

Cerca de uma hora depois, vi galhos descerem jardim abaixo. Parecia uma arvorezinha mágica capaz de andar e tudo. Vi os pés. Era o Alfred todo verdinho a flutuar.

Depois que toma o chá das cinco, segue calmo em direção ao portão. Hora de ir para casa. Camisa de colarinho arrumada dentro das calças, cinto, bolsa no ombro e um guarda-chuva preto.

Eu não estava brincando, não. O Alfred não é Hitchcock, mas é “coisa de cinema”.

03 Outubro 2009

Quase chegaram para o café da manhã





Ainda estávamos à mesa quando esses dois decidiram parar para uma conversa bem à nossa frente. Conversa longa. E a gente só assistindo. E gostando.

01 Outubro 2009

Dia 30

- Vamos aumentar o salário da Fatú – disse o Tó.
- A partir deste mês?
- Sim.

Com o aumento nas mãos, fui à procura dela. Como eu já havia pago o salário mais cedo, ela estava a contar os Leones.

Em princípio, hesitei. Eu sabia o trabalho que dava contar aquelas cédulas húmidas, que se agarram umas nas outras. Pior é que a gente nunca acredita na primeira contagem. Às vezes, nem na segunda.

Ah, mas eu sabia que ela iria gostar da novidade.

- Fatú?

Ela se virou.

- Desculpe-me pelo incômodo, mas gostaria de entregar isto aqui. A partir deste mês o seu salário fica maior...

Êita, que eu gostei do que veio depois.

Ela nem esperou eu terminar. Os olhos e a boca se entregaram a um estado de felicidade. Esticou os dois braços e me abraçou aos pulos.

- Obrigada, muito obrigada – falou pausadamente e com intensidade.

Aquilo me deixou tão animada que dei um grito e abri os braços também. Mais abraços.

- Feliz, Fatú?!
- Muito – o ‘muito’ saiu cheio, cheio de tudo. Cheio de graça.

Corri até a varanda e contei as novas ao Tó. Assim que ela o viu, agradeceu sorrindo.

- Thank you, sir.

O Tó, com aquele jeito que eu adoro, repousou uma das mãos sobre o ombro dela.

- De nada, Fatú.

Lá para o final da tarde eu estava na cozinha quando ela se preparava para ir embora. Já do lado de fora, trouxe a cabeça para dentro e disse:

- Muito obrigada. De novo.

A vida aqui é bem difícil. Os preços sobem quase todos os dias. Por isso, sabemos o que o aumento de salário significa para a Fatú. Economiza o que pode para os estudos da filha. “Quero que ela vá para a universidade. Não importa quanto tempo isso vai levar”, disse-me um dia.

Hoje, 01 de Outubro, ela apareceu de chapéu.

- Hummm, Fatú.

Notei um par de sandálias azuis a descançar sobre o tapete da porta. Sandálias novas.

Fatú Sessay está feliz.

18 Setembro 2009

Saudade



O homem amado está na Nigéria e eu aqui, a contar os dias para o seu regresso.

No domingo, tudo estará em festa.

15 Setembro 2009

“Eu espero que você goste de mim”

Era março de 2000. O António - o Tó da minha vida - estava em Serra Leoa, a acompanhar o trabalho de desmobilização das crianças soldado.

Os conflitos haviam acabado, mas ainda continuavam latejando na memória de cada um. Todos ali reconheciam o mal que haviam feito e também o mal do qual foram vítimas.

Caminhões traziam dezenas, centenas. Trezentas estavam no centro de trânsito da Cáritas, em Makeni, cidade ao norte do país.

O António conheceu muitas. Mas uma ficou na lembrança porque chegou de um jeito diferente. Num papel, ela dizia:

“Você é meu amigo, senhor António. Eu espero que você goste de mim. Abdul Karim Kamara”.

O António guardou o bilhete e nunca mais esqueceu o pequeno Karim.

Naquele mesmo ano, ele conseguiu encontrar os pais, que haviam abandonado a casa em que moravam para fugir da guerra. Também voltou à sala de aula, graças a uma bolsa de estudos que as ex-crianças soldado ganhavam, por meio de um programa do Unicef e da Cáritas.

Na semana passada, no escritório em Freetown, o passado de nove anos bateu à porta e, de novo, pediu licença por meio de palavras escritas.

- António, há um rapaz lá fora a pedir para falar com você. Entregou-me este bilhete.

“Eu sou um amigo do senhor António. Eu vim para mostrar ao senhor António os meus progressos na escola. Abdul Karim Kamara”.

Karim continua com o mesmo rosto que o António conheceu depois da guerra, mas virou um rapaz. Está quase terminando o curso de Contabilidade e já sonha com o que vem depois.

- Penso que ele vai querer ir para a universidade – disse o António.

Muitas, muitas coisas a guerra não conseguiu destruir.