Sempre quando quero encontrar o Alfred, vou atrás da camisa verde. É uma das marcas dele. A camisa verde que se destaca entre o verde do jardim. A camisa verde que ele veste todos os dias para trabalhar.
Parece gostar de ficar de cócoras ou sentado com a perna esquerda cruzada e a direita esticada para o lado. Fica um tempão assim tirando as ervas daninhas. As ervas vão para uma bacia que ele sempre carrega consigo. O vi agora há pouco com ela embaixo do braço. Um dia, quando a bacia refletiu a luz do sol, o Tó estava na varanda.
- Amor, amor, vem ver a bacia do Alfred. Que bacia linda! Parece de cobre – O Tó estava espantado com tanta beleza. Outro dia viu a bacia de perto e descobriu que era de latão.
Quando quer andar, o Alfred flutua. Vai leento, leento e leeve. Ele nem imagina que eu o observo tanto. Observo-o e fico meio assim...querendo dormir.
Esses dias, o vi ao longe sentado na grama. Estava de costas. Eu conseguia ver o seu braço esquerdo buscar alguma coisa parecida com um talo longo e fino. Os dedos da mão direita passeavam de um canto a outro como se estivessem limpando-o. Depois ele repousou o talo à sua direita. Buscava, passava os dedos, repousava os talos. Fez isso não sei quantas vezes.
No dia seguinte, vi o Alfred com uma vassoura nova e alta. “Ele deve ter feito a vassoura com os talos. Que sabido!”, pensei.
Depois a Fatú me explicou.
- Do coqueiro a gente aproveita quase tudo. Do talo das folhas fazemos vassouras.
E o Alfred lá, todo elegante. Mão esquerda esticada para baixo e vassoura nova na mão direita. Coluna quase ereta se a tarefa não exigisse uma suave inclinação para frente.
- Vassoura nova, Alfred. Você a fez? – perguntei.
- Fiz, sim – falou com um sorriso orgulhoso.
- Muito bem.
Numa manhã, da janela da cozinha, ouvi o barulho de um facão a cortar galhos da árvore que fica bem à frente. Não vi o rosto, mas logo reconheci a camisa verde. Não sei se de lá de cima ele notou que eu estava a tentar achá-lo e parou. Ibrahim, o segurança, abriu um sorriso pra mim achando graça do Alfred. Falaram não sei o quê em Krio e o Alfred voltou a cortar os galhos, que já avançavam em direção a casa.
Cerca de uma hora depois, vi galhos descerem jardim abaixo. Parecia uma arvorezinha mágica capaz de andar e tudo. Vi os pés. Era o Alfred todo verdinho a flutuar.
Depois que toma o chá das cinco, segue calmo em direção ao portão. Hora de ir para casa. Camisa de colarinho arrumada dentro das calças, cinto, bolsa no ombro e um guarda-chuva preto.
Eu não estava brincando, não. O Alfred não é Hitchcock, mas é “coisa de cinema”.