26 Abril 2010

Partida




- Sentirei a sua falta – disse o Jacob.
- Também sentirei a sua falta, Jacob.

O dia da minha partida está cada vez mais próximo. Desta vez, nada de helicóptero. Sexta-feira vou de barco para Lungui, onde fica o aeroporto. Sempre achei mais seguro. Ou melhor - menos perigoso.

Foram quase nove meses neste pedaço de África. Não voltarei a mesma pessoa. Não poderia.

O Tó e eu regressaríamos juntos para Londres. Só que o vulcão da Islândia mudou os nossos planos. E o Tó, que estava em Londres, teve o vôo cancelado e lá já ficou a organizar a nossa casa.

- Você vem a Serra Leoa com o António no final do mês que vem? – perguntou o Jacob.
- Não, Jacob. Mas voltarei assim que puder.

O motorista com o rosto em forma de lua é o nosso querido – meu e do Tó.

Faltam quatro dias para a minha partida, mas a saudade já chegou.

30 Março 2010

Kenema


Jacob parou o carro assim que a guarda de trânsito deu o sinal. Quando o Tó e eu olhamos para os lados, percebemos que os pedestres também haviam parado.

Todos pareciam estátuas – a guarda com o braço esquerdo bem esticado para cima, um garoto que nem piscava os olhos...

Conseguíamos ouvir o canto de crianças vindo de uma escola ao lado.

- É o hino nacional. Todos páram em sinal de respeito – explicou o Jacob, o motorista.

Estávamos em Kenema, a terceira maior cidade de Serra Leoa, localizada no leste do país. Ao longo da rua principal ficam casas onde funcionam escritórios de compra e venda de diamantes. As atividades extrativistas são geralmente geridas por estrangeiros, principalmente libaneses.

- Hoje à noite vamos ter fornecimento de energia elétrica porque um representante do Presidente da República está na cidade – disse o Jacob.

Quando voltamos à pensão, descobrimos que o tal representante presidencial também estava hospedado lá, com uma bem pequena comitiva e um segurança a carregar um fuzil de um lado a outro.

Fomos a Kenema a trabalho. O Tó tinha uma agenda de encontros a cumprir. Eu – um treinamento a dar; um curso intensivo de edição de vídeo para um grupo de onze pessoas.

A técnica e os conceitos adquiridos durante o treinamento seriam aplicados num projeto de vídeo participativo - os vídeos são feitos por comunidades que participam de todo o processo, desde a produção até a edição do material.

O aparelho de ar-condicionado da sala de treinamento não funcionava por falta de energia elétrica. Havia um gerador pequeno. Mas se ele tivesse vida, desmaiaria só de pensar que teria que gerar energia para um aparelho de ar-condicionado.

O pequeno ventilador do teto só conseguia espalhar as nossas folhas de papel sobre a mesa. Estávamos todos "lutando para sobreviver" naquele calor de quase 40 graus, inclusive o Tó, que passou o tempo livre do sábado e do domingo numa salinha ao lado. Como você foi, de novo, tão companheiro, amor! Companheiro do começo ao fim.

Na sala do treinamento, olhares atentos, testas franzidas.

- Entenderam? – eu perguntava.
- Explica de novo essa parte – dizia um.

E seguimos a falar de cenas, cortes, seqüência, transições, títulos, créditos, músicas... Eles estavam aprendendo e apreendendo. Um processo encantador. Eu sabia que, a partir de então, eles lançariam um olhar completamente novo sobre qualquer imagem captada por uma câmera de vídeo.

- Estou me sentindo fortalecido – diziam.

A minha tarefa parecia cumprida.

18 Março 2010

O doce sabor do tempero

Aconteceu há oito meses, exatamente no nosso primeiro domingo aqui em casa.

Os vidrinhos com as nossas especiarias haviam viajado conosco. O Tó não os deixaria em Londres tanto tempo. Estavam bem arrumados sobre o balcão da cozinha, só à espera que alguém os abrisse.

O Tó refogou cebola, alho, pimentas ... Depois subiu aquele cheiro de ...

- Que coisa estranha, não é, amor? – perguntei de olho na panela.
- Pois é. Nunca ficou assim antes.

Não tinha aspecto de caril de camarão, muito menos cheiro de caril.

Depois que levamos o garfo à boca, ficamos parados e em silêncio a olhar um para o outro.

Logo, veio a figura do suspeito à minha mente. Corri atrás dele, que ainda estava no cesto do lixo da cozinha. No rótulo da lata, uma foto de pina colada. A palavra AÇÚCAR estava lá, na lista de ingredientes.

Descobrimos, finalmente, porque o caril tinha se transformado em doce de camarão.

02 Março 2010

De reencontros e saudade



Não escrevo uma nota sequer há quase três meses. Que vergonha!

Sobraram viagens, mas me faltaram (e ainda me faltam) palavras.

Porque precisávamos passar o Natal em Londres e o ano novo no Brasil, o Tó e eu quase desenhamos um triângulo imaginário ao sair de África, seguir para a Europa e depois para a América do Sul.

Não foi possível ir a todos os lugares que queríamos, reencontrar todos os parentes e amigos, mas foram dias maravilhosos.

Ver o meu pai atento ao portão de desembarque. Uma cena para não esquecer.

- O vôo da Fábia está atrasado, só chegará bem mais tarde.

A minha mãe chegou a acreditar nele. E eu, que não era surpresa, acabei sendo. A minha mãe abriu o maior dos sorrisos quando apareci à porta.

Saudade.

A mesa estava lá, como sempre, cheia de quitutes.

- Você está magra.

Eu sabia que não estava. Mas minha mãe queria esvaziar a mesa, as panelas, a geladeira.

Engordei três quilos.

Na reunião de família, o Tó e eu ganhamos um presente delicioso de uma prima. Com o bolo, celebramos, de novo, o nosso casamento.

Comi o “bolo de noiva” e também alguns pratos que a Sofia preparou.

Às voltas com fogão, panelinhas e xícaras de plástico, ela comandava uma cozinha que eu conseguia enxergar com os olhos da minha imaginacão. Da mistura de grãos de arroz e feijão, tudo saia.

- Vai demorar muito para ficar pronto, Sofia? - perguntei.
- Não, não vai demorar.
- Quantos minutos para ficar pronto, então?
- Hummm... – pensou um pouco – Três minutos.

Passados menos de três minutos, lá veio a Sofia - mãozinha estendida a carregar uma pequena xícara de plástico.

Recebi a xícara, ou melhor, “o prato” cheinho de grãos, e perguntei:

- Que comida é esta, mesmo, Sofia?
- ÉÉÉ... É uma salada!
- Hummm... Muito gostosa esta salada. Posso ter mais um pouquinho?
- Pode comer tudo.

04 Dezembro 2009

Quem é vivo sempre aparece

O Tó está em Londres. Partiu sexta-feira passada. Foi para mais uma semana de reuniões de trabalho. E de frio.

Eu continuo a desfrutar o calor deste pedaço de África. Calor ardente com a chegada da estação seca. A vegetação que se espalha ao longo das estradas de barro está castanha de tanta poeira. O calor trouxe uns insetos que mais parecem baratas e não param de procriar.

Hoje voltei de uma viagem de cinco dias de muito trabalho em Makeni, cidade ao norte de Serra Leoa .

Antes de tomar o caminho de volta a casa conheci a família de Battuta, colega de equipe. A filha de uns dois anos de idade levou um susto e começou a chorar assim que me viu.

- É por causa da sua cor. Ela não está acostuma – explicou o pai.

Um lenço, com a bandeira do Brasil, escondia o cabelo da esposa de Battuta.

- Esta é a minha mãe.

Foi o nosso primeiro encontro, mas eu já sabia um pouco da história de vida daquela mulher vestida numa túnica verde.

Quando jovem, impôs uma condição ao noivo muçulmano - só se casaria se ele prometesse que ela seria sua única esposa. O noivo prometeu, casou e pouco tempo depois quebrou a promessa. Quebrado também ficou o coração da mãe de Battuta, que nunca mais quis dividir a cama com o marido.

- Aquele é o meu pai.

O pai apareceu ao longe – um homem magro e de baixa estatura que caminhava a passos lentos. Vestia uma de suas melhores roupas para ir à mesquita.

- Posso fazer imagens de vocês, Battuta?
- Claro!

Battuta se colocou ao lado do pai. Pôs o braço direito sobre os seus ombros e mostrou-se pronto.

Pai e filho. Battuta ergueu um pouco o rosto e ali ficou. Parecia feliz.

16 Outubro 2009

Um plano quase perfeito



Quando estávamos no meio da estação das chuvas, a cozinha foi atacada por formigas. Aquelas bem pequeninas. Organizadas como são, um dia montaram um plano tão bem montado e às escondidas. Em poucos segundos, atacaram o bolo com passas que eu havia feito.

Eu que tinha tido tanto trabalho para fazer o bolo... O meu plano de segurança alimentar tinha tudo para dar certo – água numa bacia grande de plástico, uma caixa de plástico dentro da bacia e, finalmente, o bolo coberto por uma toalhinha de pano.

O bolo ficou numa “ilha”. E como elas (as pequeninas) não nadam, não havia perigo de ataque. O meu erro foi ter deixado, sem perceber, uma pontinha da toalha a tocar na bacia. Pronto! A pontinha serviu de ponte e as formigas fizeram a festa.

Gritei o nome do Tó e passei o bolo pra ele. Mas eu precisava pensar no que fazer.

- Amor, elas estão subindo nos meus braços e me picando!

Peguei o bolo e o joguei direto no forno que ainda ardia. As formigas ficaram assadas e o bolo... Não gosto nem de pensar.

14 Outubro 2009

Para não enferrujar

- Fatú, vou lá em cima – falei.

Ela olhou para os meus pés e viu os tênis vermelhos. Passou os olhos no meu vestido e deu um sorriso.

- Se eu não fizer alguma coisa, o meu corpo vai enferrujar – eu disse.
- Tem uma academia aqui perto – falou.
- Não gosto de academia, Fatú. Não funciona comigo.
- OK.

E lá fui eu a subir a rua onde moramos. Melhor dizendo, a subir a ladeira. Há plantas em boa parte do caminho e alguns lagartos a correr pelo chão.

E fui subindo. Um rapaz também. Subia em zig zag, em marcha cada vez mais lenta como se quisesse que eu o alcançasse. Olhava pra mim e eu séria. Nada de cumprimentos.

Da última vez que arrisquei um ‘bom dia’, um rapaz parou, quis saber o meu nome, como eu estava... Êita que deu trabalho.

Ao chegar lá em cima, eu estava morta.

Dei uma olhadinha no movimento da rua principal e me preparei para descer. Quando olhei para o pé da ladeira, avistei o Ibrahim, bem magrinho no seu uniforme preto com detalhes vermelhos. Não tirava os olhos da ladeira. E eu sem entender nada.

- Tô me exercitando, Ibrahim – disse, ao chegar ao portão de casa.
- Pois é.
- Fatú, Ibrahim parece segurança de presidente da República.
- Pedi pra ele ficar de olho, fazendo a segurança enquanto você sobe e desce para ninguém parar e conversar besteira – explicou Fatú.

‘Essa eu vou contar ao Tó’, pensei. E lá fui eu de novo.

Enquanto eu subia, um menino descia. Carregava um saquinho de farinha na cabeça e algumas pedras nas mãos. O alvo foi um cachorro. Menino danado. Com cara de pidão, o cachorro olhou pra mim.

Desci e subi. De novo.

- Ibrahim, esta é a ultima.